ARTE NOSSA CAPOEIRA

Mestre Pernalonga

Uma viagem pela história da capoeira

Uma viagem pela história da capoeira

São ao todo cinco séculos de história.
Não é fácil fazer uma viagem tão longa ao passado.
Mas é essencial para compreender a capoeira tal como a conhecemos hoje.Nasceu como luta de resistência contra um sistema opressor, foi odiada pelos senhores dos grandes engenhos, temida e até conotada com o crime.
Mas sobreviveu e adaptou-se aos tempos.Saiu das ruas para ser ensinada e unir gerações.
Criada no Brasil hoje a arte respira nos quatro cantos do mundo.
O Universo é amplo e apaixonante…

Índice:
1- A origem da capoeira: Uma luta de resistência na sua essência
a) A escravatura- tribos inteiras cruzam o oceano como animais em gaiolas.
b) Os Quilombos: reprodução das sociedades tribais africanas
bb) Quilombo de Palmares- O berço das primeiras manifestações de capoeira?
C) Zumbi- o ícone da resistência negra
2- A expansão da capoeira
a) Dos engenhos rurais para o frenesim das metrópoles
b) Séculos de perseguição
3- Mestre Bimba: criador da capoeira regional
a) Das ruas para as academias: o nascimento de um método de ensino
b) Reconhecimento da capoeira como único desporto genuinamente brasileiro
c) O ritual da Formatura de Bimba
4- Mestre Pastinha- o guru da capoeira Angola
5-Caraterização estilos Angola e regional
6-A música na capoeira
a) berimbau- o instrumento símbolo da capoeira
aa) Os toques de berimbau
b) pandeiro
c) atabaque
d) agogo
e) reco reco
7- Capoeira também é dança, folclore, tradição
a) Maculelé
b) Samba de Roda
bb) Samba de Roda no Recôncavo Baiano
c)  Os cantos da capoeira
8-A capoeira brasileira é do Mundo

1-Origem da capoeira:
Uma luta resistência na sua essência
A hipótese da capoeira ser africana está posta de lado.
Até hoje nenhum investigador conseguiu encontrar nada de credível que leve a crer que a capoeira tenha origens africanas. Até porque grande parte da história afro brasileira foi transmitida e registada mais de boca em boca do que em provas documentais.
A verdade é que faltam registos escritos.
Alguns historiadores defendem mesmo que Rui Barbosa, ministro da Fazenda do governo de Deodoro da Fonseca mandou queimar todos os documentos relacionados com a escravatura no Brasil. São episódios de um passado muitas vezes marcado pela desumanidade que até hoje envergonham.
O que se sabe é que os negros trouxeram de África a lembrança de um jogo chamado “ Dança da Zebra”- uma luta festiva para disputar o amor de uma mulher, em que o vencedor ganhava a mão da mulher para um proposto casamento.
Se é possível chegarmos perto do curso da história poderemos dizer que  a capoeira pode ter engravidado em África, mas tudo indica que tenha nascido no Brasil. Uma criação bem brasileira, gerada a partir de elementos africanos.
Também se sabe que o negro aprendeu a observar o comportamento dos animais no Brasil, particularmente o lagarto, o boi, o cavalo, a cobra- animais que atacam e se defendem com destreza.
Assim, os africanos foram formando um conjunto de movimentos que reunia agilidade, técnica e força.  Como não possuíam armas suficientes para a sua defesa  encontraram no próprio corpo a maneira de enfrentar os inimigos imitando gatos, macacos, cobras, bois e até aves.
Das marradas pode ter surgido a mortal cabeçada. No ataque do jacaré pode estar a origem da meia lua de compasso ou do rabo de arraia. Assim os escravos negros podem muito bem ter descoberto as suas armas nestes movimentos.
1 a) A escravatura
Tribos inteiras cruzam o oceano como animais em gaiolas…
Recuemos cinco séculos. Altura em que o Brasil vive um dos períodos mais difíceis da sua história. O país recebe 42% de todos os escravos enviados através do Atlântico para a América do Sul.
Mais de dois milhões de negros são levados à força para se tornarem escravos nas lavouras de cana de açúcar, algodão e café. São obrigados pelos colonizadores portugueses a transformar-se em verdadeiras máquinas de trabalho.
A escravidão africana começa no século XVI e só termina no século XIX. Os negros eram na sua maioria originários de Yoruba e Quimbundo que nos dias de hoje correspondem à Nigéria, Benin e Angola.
Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro eram os portos finais de grande parte deste tráfico.
Fácil imaginar a humilhação de viver em cativeiro e o que isso provocou: um  cem número de episódios de angustia e revolta entre a comunidade negra.
A maior prova de resistência contra a escravatura foram os Quilombos.
1b- Os Quilombos: reprodução das sociedades tribais africanas
Eram no fundo comunidades organizadas pelos escravos fugitivos. Ficavam em locais de quase impossível acesso. Geralmente em pontos altos da mata. A capoeira terá começado a ser usada pelos negros precisamente durante as fugas para os Quilombos.
Uma forma de luta contra os capitães do mato, os senhores dos grandes engenhos.  Como não tinham acesso a armas, os escravos usavam o corpo como instrumento para a luta de libertação.
1bb- Quilombo de Palmares: O berço das primeiras manifestações de capoeira?
O maior e mais duradouro destes Quilombos estabeleceu-se no século XVII na serra da Barriga, antiga capitania de Pernambuco, mais concretamente em Palmares.
A existência desta comunidade incomodava e de que maneira todo o sistema colonial português. É que os negros no cativeiro ouviam histórias de Palmares e alimentavam a esperança de fugir.
No seu apogeu,  o Quilombo dos Palmares abrigou mais de 20 mil habitantes numa área de quase 27 mil quilómetros quadrados.
A sua formação terá acontecido provavelmente em 1597 após a fuga de quarenta escravos de um engenho de Porto Calvo, no sul da capitania. Foi na verdade uma das maiores organizações de escravos negros foragidos das fazendas.
Estruturou-se no período colonial e resistiu por quase um século.
Aqui formou-se uma espécie de estado africano, em que toda a área estava dividida em pequenas povoações chamadas mocambos, governados por oligarcas sob a chefia suprema do rei Ganza Zumba.
O rei fez as aldeias crescerem e implementou tácticas de guerrilha na defesa do território.
Zumbi, seu sobrinho herdou a liderança do Quilombo por valor pessoal e combatividade. A essência de luta da capoeira terá tido raízes nos inúmeros confrontos de luta pela liberdade.
1C- Zumbi- o ícone da resistência negra
Zumbi (1655-1695) nasceu no Quilombo dos Palmares e foi ele quem o dirigiu. Inicialmente substituiu a defensiva táctica de guerrilha por uma estratégia de ataques de surpresa constantes a engenhos.
Libertou muitos e muitos escravos e apoderou-se de armas e outros materiais que pudessem ser úteis para novos ataques.
Zumbi era incómodo para a coroa portuguesa que tinha que tomar alguma medida para afirmar o seu poder na região.
É então que o governador-geral contrata o experiente bandeirante Domingos Jorge Velho para por um fim à ameaça de escravos fugitivos. Em Janeiro de 1694 o seu exército começa uma empreitada vitoriosa. António Soares, um quilombola é capturado. Domingos Jorge Velho promete-lhe a liberdade em troca da esconderijo de Zumbi. A 20 de Novembro de 1695 Zumbi é capturado numa emboscada. A sua cabeça foi cortada e levada para o Recife e exposta numa praça pública para servir de exemplo a outros escravos.
A data oficial do seu assassinato foi transformada em Dia Nacional da Consciência Negra pelo Movimento Negro Unificado em 1978.
2- A expansão da capoeira
No meio do mato a capoeira era praticada como luta mortal.
Nas fazendas era praticada como “brinquedo inofensivo”.
Mas a capoeira era no fundo um instrumento de libertação contra um sistema dominante e opressor.
Foi ensinada aos negros ainda cativos por aqueles que eram capturados e levados de volta para as fazendas.
No entanto não se podia levantar qualquer suspeita entre o senhores dos engenhos. Por isso os movimentos de luta foram sendo adaptados às cantorias e músicas africanas. A ideia era fazer com que se parecessem uma dança. A capoeira era tal como no candomblé (religião afro-brasileira), muito cercada de segredos aos olhos dos outros.
2a) Dos engenhos rurais para o frenesim das metrópoles
Em 1850 acaba o tráfico de escravos africanos e a 13 de Maio de 1888 a Princesa Isabel decreta a Lei Áurea para terminar definitivamente com a escravatura no Brasil.
É o fim de um dos episódios mais deprimentes da história brasileira.
Com a liberdade reconhecida  muitos ex-escravos vão para as cidades à procura de trabalho. Principalmente Rio de Janeiro, Bahia e Recife.
É então que a luta dos matos se adapta ao frenesim das metrópoles.
Em Salvador da Bahia capoeiristas organizados em bandos provocam arruaças nas zonas populares. A tal ponto que a capoeira foi proibida durante décadas no Brasil. A imagem dos capoeiristas também contribuía. Distinguiam-se dos demais negros pela forma como se vestiam: chapéu de lado e argolinha de ouro na orelha como insígnia de força e valentia. Em segundos provocavam grandes desordens e conseguiam escapar ilesos.
Muitos até se ofereciam para assassinatos e emboscadas e chegaram a ser utilizados pelos políticos como capangas.  Eram temidos pela própria polícia e identificados como criminosos profissionais.
2c) Séculos de Perseguição
Com a chegada da República em 1889 o Marechal Deodoro da Fonseca pressionado pela onde de criminalidade, inicia uma campanha de combate à capoeira. A perseguição do governo começava precisamente pelas ruas. Alguém que fosse encontrado a fazer capoeira era imediatamente levado à ilha Trindade em Fernando de Noronha para trabalhos forçados.
O código penal de 1890 previa  2 a 6 meses de prisão aos “praticantes de agilidade e destreza corporal” conhecidos pela denominação de capoeiragem.
A capoeira era perseguida pela polícia e conotada com o crime e a desordem. Um dos castigos que por exemplo davam aos capoeiristas que eram presos era amarrar um dos punhos a um rabo de cavalo e o outro punho a um segundo cavalo. Os dois cavalos eram soltos e postos a correr até ao quartel. Por causa disso comentava-se que era melhor lutar perto do quartel porque assim não se corria o risco de ser arrastado com velocidade durante quilómetros até se chegar ao destino: o quartel da polícia.
Esta situação arrastou-se  até 1937, altura em que a capoeira é oficializada como desporto nacional do Brasil e em que Mestre Bimba consegue registar a sua primeira academia.
3- Mestre Bimba- criador da capoeira regional
Está na mente de todos os capoeiristas e conseguiu o reconhecimento de várias gerações pela genialidade da sua mais reconhecida criação:  a capoeira regional
Nome: Manuel dos Reis Machado
Filho de Luiz Cândido dos Reis Machado e D. Maria Martinha do Bonfim.
Nasceu no dia 23 de Novembro de 1899 no bairro do engenho velho em Salvador da Bahia.
O apelido Bimba resultou de uma aposta da parteira com a sua mãe.
D. Martinha acreditava que daria à luz uma menina mas a parteira dizia que ia nascer um menino.
A parteira ganhou a aposta e o pequeno Manuel recebeu o apelido de Bimba, nome que o acompanhou para o resto da vida e que no Brasil quer dizer “cabra macho”.
Começou na arte da capoeira com menos de 12 anos. O caçula de D. Martinha iniciou-se na capoeira no bairro da Liberdade em Salvador.
Teve como mestre e professor um negro africano chamado Bentinho, que era capitão da Companhia Baiana de Navegação.
Aprendeu durante 4 anos e a partir daí começou a ensinar.
Ensinava capoeira de angola na capitania dos portos da Bahia.
Fê-lo por mais de 10 anos, mas não era fácil ensinar uma arte à rebelia das autoridades.
3a) Da rua para as academias- o nascimento de um método de ensino
Bimba sentiu que a capoeira Angola que ele praticava e ensinou por algum tempo tinha-se modificado, degenerado e passado a servir de prato do dia para pseudo capoeiristas que a utilizavam unicamente para exibições em praças usando um número reduzido de golpes.
Achou que o melhor era começar por tirar a capoeira das ruas.
Levou-a para as academias e criou um novo estilo.
Bimba era um exímio praticante de capoeira angola e muito íntimo dos golpes do batuque (uma luta onde o objectivo era deitar o adversário ao chão usando apenas as pernas), sabedoria adquirida com o pai, um mestre neste desporto, campeão absoluto na Bahia, conhecido como “o grande batuqueiro de Salvador”.
Assim sendo, Bimba resolveu fundir as duas artes. Deu uma nova roupagem à capoeira e tornou-a mais rápida e ágil.
É desta forma que nasce um novo estilo: Luta Regional Baiana.
Designado desta forma por ser praticado na época somente na região de Salvador e só  mais tarde já em franca expansão passou a chamar-se capoeira regional.
Foi o próprio Mestre Bimba que o disse “Em 1928, criei a regional que é o batuque misturado com a Angola, com mais golpes, uma verdadeira luta, boa para o físico e para a mente”.
Bimba cria um método e aprimora os ensinamentos da capoeira, algo que até à data não existia.
O que caracterizava esta capoeira era a sua sequência de ensino.
A sequência passou mesmo o ABC da capoeira.
A sequencia original completa de ensino é formada com 17 golpes, onde cada aluno executa 154 movimentos.
Os golpes integrantes da sequência são:
Aú, Cocorinha, Giro, Queixada, Armada, Cabeçada, Joelhada, Negativa, Palma, Arrastão, Godeme, Martelo, Meia Lua de Frente, Bênção, Galopante, Meia Lua de Compasso e Role.
Em suma, Bimba criou uma série de exercícios físicos completos e organizados.
Ainda assim a capoeira continuava a ser ilegal. Por causa disso Bimba designa a sua primeira academia como Centro Cultural Físico Regional Baiano, localizada no Engenho das Brotas em Salvador.
Só em 1937 é que o governo brasileiro legaliza finalmente a capoeira.
3b) Reconhecimento da Capoeira como único desporto genuinamente brasileiro
Em plena década de 30 aparece na academia de Bimba um funcionário do Governo a convidá-lo a aparecer no Palácio.
Bimba desconfia das intenções e pensa até que vai ser preso.
Pede aos familiares e alunos que levem a sua obra adiante caso não volte. Mas ao chegar ao palácio é surpreendido. Getúlio Vargas (o Presidente que mais tempo governou o Brasil e que além de legalizar a capoeira também criou a justiça do trabalho, instituiu o salário mínimo, a consolidação das leis de trabalho, os direitos trabalhistas)
então presidente da República do Brasil e o governador da Bahia Juracy de Magalhães convidam Bimba a fazer uma demonstração pública de capoeira. Assim acontece e todos se maravilham com a arte.
A 9 de Julho de 1937 o governo oficializa a capoeira e dá a Mestre Bimba um registo para a sua academia junto à Secretaria da Educação, Saúde e Assistência Pública de Salvador.
Mas a legalidade foi negociada com controlo institucional. A capoeira só podia ser praticada em espaços fechados.
A partir daí a capoeira deixa de ser associada à marginalidade e passa a ser praticada por todas as classes sociais. Até a burguesia corria para as academias. Primeiro para assistir, depois para aprender e praticar.
A capoeira de Bimba ganha uma tal popularidade que em 1942 o Mestre funda a sua segunda academia no Terreiro de Jesus- rua das Laranjeiras, hoje rua Francisco Muniz Barreito 1, onde continua a funcionar sob a direcção do ex-aluno Vermelho 27.
Traído por falsas promessa do governo, falta de apoio e dificuldades financeiras, Mestre Bimba morreu a 5 de Fevereiro de 1974 no Hospital das Clínicas de Goiânia, vítima de derrame cerebral
3c) O Ritual de formatura de Bimba:
Uma prova de que a capoeira estava a tornar-se mais organizada era o ritual de formatura criado por Bimba.
Para se formar No Centro de Cultura Física  Regional de Bimba o aluno tinha que ter no mínimo seis meses de treino. E era o Mestre que escolhia os alunos que podiam ser examinados.
A formatura era um dia especial tanto para o mestre como para o aluno.Um ritual com direito a orador, madrinha, lenço de seda azul e medalha.
A festa era realizada no Sítio Caruano no Nordeste de Amaralina em Salvador na presença dos convidados e de toda a academia.
Para o ritual da formatura Mestre Bimba vestia-se de branco e com um  apito no pescoço multava aqueles que chegassem atrasados. A multa era pagar a um formado antigo cervejas ou uma “mulher barbada”, uma bebida que Bimba preparava e que só ele sabia o segredo.
Quanto já estavam todos presentes, Bimba soprava o apito e iniciava o ritual da formatura.
Os formados começavam por fazer uma apresentação explicando o que era a capoeira regional.
Em seguida chamava-se o paraninfo que entregava as medalhas (diploma) e os lenços (graduação) às madrinhas.
Os lenços eram uma homenagem aos mestres do passado, que usavam o lenço de seda para se protegerem das navalhas. É que de acordo com Mestre Bimba a navalha não cortava a seda pura.
A seguir Bimba chamava os formandos, um de cada vez e pedia determinados golpes. Se o aluno errasse pagaria uma multa: seis a doze cervejas ou uma “mulher barbada”, além de repetir o golpe até acertar.
Logo depois os formandos tinham que fazer uma cintura desprezada (sequencia de golpes ligados e balões, também conhecidos como Movimentos de Projecção de Capoeira onde o capoeirista projecta o companheiro que deverá cair em pé ou agachado, mas jamais sentado) sem errar. Bimba dizia que era uma satisfação que o aluno estava a dar aos formados e à plateia.
Os formandos faziam o jogo do floreio, onde os dois capoeiristas não se podiam sujar, já que estavam vestidos de branco.
Seguia-se o esquete ou jogo combinado no qual era obrigatório o uso de balões.
Ao terminar Bimba dava conselhos aos novos formados “Não dobrem a esquina, o malandro pode estar esperando” ou “ é melhor apanhar na roda do que na rua”.
Finalmente chegava a hora do tira medalha, a prova de fogo. Um verdadeiro desafio onde os alunos formados antigos tentavam tirar a medalha  dos formandos com o pé. Caso isso acontecesse o aluno deixava de formar. Bimba contava que tal só tinha acontecido duas vezes.
O aluno jogava com todos os seus recursos. Enfrentava um capoeirista malicioso e técnico até ao momento que o mestre apitasse para encerrar com o jogo.
Aí o formando conferia se a medalha continuava ao peito.
Era também durante o ritual de formatura que o aluno caloiro recebia um “nome de guerra”, um apelido capoeirístico. E tudo servia de pretexto: o tipo físico, o bairro onde  morava, a profissão, o modo de ser, atitudes, um dom artístico qualquer.
Depois das várias provas o mestre levantava a mão e dava então um nome ao aluno com o qual a partir daquele momento passaria a ser conhecido no “mundo da capoeira”.
Por fim e dando continuidade ao ritual de formatura seguiam-se o maculelé, o samba de roda, o Samba Duro e o Candomblé.
4- Mestre Pastinha (1889-1982)- o guru da capoeira de Angola.
O grande mestre da capoeira Angola que aperfeiçoou a arte centenária dos escravos.
Organizou uma escola, estabeleceu um método de ensino com base nas antigas tradições e ainda escreveu o primeiro livro do género, onde expõe a sua concepção filosófica da arte- “Capoeira Angola” publicado em 1964.
Jogou capoeira até aos 79 anos e formou gerações de angoleiros.
Formou capoeiristas como João Pequeno, João Grande, Cúrio e tantos outros.
No estilo Angola não há graduações por cordas ou cordéis já que a capoeira Angola ainda mantém a tradição que ainda se cumpria quando a arte não era permitida. Desta forma nenhum capoeirista corria o risco de ser preso.
Mais tarde, após o reconhecimento da capoeira Pastinha institui as cores preto e amarelo para o  uniforme dos angoleiros, as cores do Ipiranga Futebol Clube, a equipa do seu coração.
No estilo Angola há graduações como: aluno, professor e mestre.
Conhecemos a obra, conheçamos agora o homem:
Nasceu em 1889. Filho do espanhol José Senôr Pastinha e de Dona Maria Eugénia Ferreira.
O pai era comerciante proprietário de um pequeno armazém no centro histórico de Salvador e a mãe com quem teve pouco contacto era uma negra natural de Santo Amaro da Purificação. Vendia acarajé  (prato genuinamente baiano feito à base de camarão e feijão frade descascado) e lavava roupa às famílias mais abastadas da capital baiana.
Pastinha conheceu a arte da capoeira com apenas 8 anos de idade quando um africano que chamava carinhosamente de Tio Benedito ao ver o menino magrote e pequeno apanhar de um rapaz mais velho resolveu ensinar-lhe a arte da capoeira.
Durante 3 anos Pastinha passou tardes inteiras nas ruas de Salvador a treinar golpes. Meia-lua, rasteira, rabo de arraia, entre outros.
Durante as manhas frequentava as aulas no Liceu de Artes e Ofícios onde também aprendeu pintura. À tarde jogava capoeira nas ruas de Salvador. Aos 13 anos era o garoto mais respeitado e temido do bairro.
Mais tarde foi matriculado na Escola de Aprendizes de Marinheiros pelo pai que não concordava com a vadiagem do rapaz.
Aos 21 anos voltou para o Centro Histórico. Deixou a Marinha e dedicou-se à pintura. Mas seis horas de folga eram dedicadas à capoeira. Ainda que às escondidas já que no início do século esta luta era crime à luz do código penal da República.
Em Fevereiro de 1941 fundou o Centro Desportivo de Capoeira de Angola, no casarão número 19 do Largo do Pelourinho na Bahia.
Esta foi a sua primeira academia-escola de capoeira
Disciplina e organização eram palavras de ordem na escola de Pastinha.
Pastinha viajou para vários cantos do mundo. Levava a capoeira para representar o Brasil em vários festivais de arte negra.
Aos 84 anos e muito debilitado fisicamente deixou a antiga sede da academia e foi morar num quarto velho do Pelourinho com a sua segunda esposa.
Á semelhança da sua primeira esposa, Dona Maria Romélia também vendia acarajé e foi quem valeu a Pastinha.
Em 12 de Abril de 1981 Pastinha participou no último jogo de capoeira da sua vida.
Acabou derrotado pela miséria e pela doença. Morreu aos 92 anos a 13 de Novembro de 1981. Sexta Feira. 13.
Estava cego,
Notável na sua arte, Pastinha deixou-nos os seus ensinamentos de vida em muitas mensagens fortes e inesquecíveis como esta:
“NINGUÉM PODE MOSTRAR TUDO O QUE TEM. AS ENTREGAS E REVELAÇÕES, TÊM QUE SER FEITAS AOS POUCOS. ISSO SERVE NA CAPOEIRA, NA FAMÍLIA E NA VIDA. HÁ MOMENTOS QUE NÃO PODEM SER DIVIDIDOS COM NINGUÉM E NESTES MOMENTOS EXISTEM SEGREDOS QUE NÃO PODEM SER CONTADOS A TODAS AS PESSOAS.”
Mestre Pastinha 10/10/80
5-Caracterização Estilos Angola e Regional
Capoeira Angola:
É o estilo de capoeira mais próximo da forma como os escravos lutavam. O jogo Angola assemelha-se ao xadrez pela complexidade dos elementos envolvidos. Não tem uma aprendizagem sistematizada como no estilo regional e por isso o seu domínio é mais difícil. Envolve não só a parte mecânica do jogo como também a subtileza, a dissimulação, a mandinga, o subterfúgio ou mesmo a brincadeira para enganar o oponente.
Caracteriza-se por ser mais lenta com movimentos realizados perto do solo.
A música é lenta e quase sempre está acompanhada por uma bateria completa de instrumentos: 3 berimbaus, 2 pandeiros, um atabaque, um reco reco e um agogo
Mestre Pastinha foi o grande defensor do estilo e em 1942 funda em Salvador a primeira academia de Angola.
Capoeira Regional:
É um estilo mais recente. O jogo tem fortes marcas de arte marcial. Foi criada por Mestre Bimba e rapidamente tornou-se popular. Chegou ao grande público e mudou a imagem do capoeirista encarado no Brasil durante anos como um marginal.
O jogo é mais rápido, acrobático e atlético: saltos, acrobacias (conhecidas na capoeira como floreios), rasteiras, cabeçadas.
6- A música na capoeira
O negro escravo disfarçava a sua luta valendo-se da música e foi assim que lentamente a música foi sendo incorporada na capoeira.
Aliás a capoeira é a única modalidade de arte marcial que é acompanhada com instrumentos musicais. A música é uma componente fundamental da capoeira. Ela determina o ritmo e o estilo do jogo.
Muitas canções são cantadas na forma de pequenas estrofes intercaladas por um refrão, enquanto que outras aparecem na forma de longas narrativas, mais conhecidas por ladainhas.
Os assuntos são os mais variados: histórias de capoeiristas famosos, o quotidiano de uma lavadeira, a vida, um amor perdido.
A música comanda a capoeira, não só no ritmo mas também no conteúdo. Veja-se por exemplo o toque de cavalaria que era usado para avisar os integrantes da roda que a polícia estava a chegar.
Os instrumentos são tocados numa linha chamada bateria.
Inicialmente havia palmas e toques de tambores. Só mais tarde é que foi introduzido o berimbau- o instrumento rei da capoeira
Vamos conhecer melhor então magnífico instrumento de cordas.
6a) Berimbau- o Instrumento símbolo da capoeira.
Comanda a roda de capoeira, dita o ritmo e o estilo do jogo.
Instrumentos parecidos foram encontrados nas mais diversas partes do mundo: Novo México, Patagónia, África  e estão presentes nas mais variadas civilizações: egípcia, hindu, persa, assíria.
Porém há registos do berimbau da forma como o conhecemos em África. De lá terá sido levado para o Brasil pelos escravos africanos.
O berimbau é um instrumento composto por uma haste tensionada por um arame. A caixa de ressonância é uma cabaça cortada.
O som pode ser variado abafando-se o som da cabaça e (ou) encostando uma moeda de cobre (ou uma pedra) no arame.
O instrumento é completado com um caxixi- uma cestinha de vime com sementes secas no interior.
Inicialmente usado por vendedores ambulantes para atrair fregueses tornou-se o instrumento símbolo da capoeira, conduzindo o jogo no seu timbre genuíno.
Os ritmos são em compasso binário e os andamentos- lento, moderado e rápido são indicados pelo toque do berimbau.
A afinação e respectivo tamanho também variam:
-gunga- o maior e o que emite o som mais grave
-Médio
-Viola. – o mais pequeno e o que emite o som mais agudo.
6aa) Toques de berimbau:
Cada toque tem um significado e representa um estilo de jogo:
-S. Bento Grande da Regional- jogo rápido criado por Mestre Bimba. Indica um jogo alto com toques aprimorados e bem objectivos.
-S. Bento Grande de Angola- Toque que embala o jogo rápido. Os golpes altos e rápidos são características do jogo. As rasteiras e bandas também são comuns.
-S Bento Pequeno- é o toque usado em demonstrações, onde os golpes passam a poucos centímetros do “alvo”.
-Angola- é o toque de abertura,  jogo lento e rasteiro, onde os capoeiristas mostram flexibilidade e malícia.
-St. Maria- Depois de abolida a escravidão, a capoeira começou a ser praticada por marginais e era comum a presença de navalhas nas rodas. O objectivo deste toque era avisar a quem estivesse a jogar que um deles tinha a intenção de usar a navalha.
-Toque de Cavalaria- Servia para avisar da chegada dos polícias quando a capoeira era ilegal no Brasil. O toque imita o trote dos cavalos, já que na época a polícia andava montada.
-Iuna- Uma marca registada da capoeira regional de mestre Bimba. Era tocado no final das aulas ou em eventos especiais. Um toque onde só os alunos formados tinham direito a entrar na roda com a obrigatoriedade de jogarem um jogo de floreio, bonito, criativo, malicioso e que deveria incluir movimentos de projecção.
É um toque sem canto que Bimba usava para formar os seus alunos.
É também usado quando ocorre a morte de um capoeirista como toque fúnebre. Imita o canto do pássaro Iuna.
-Benguela- jogo técnico e com ritmo cadenciado, compassado, malicioso e floreado.
-Amazonas- toque usado na chegada de um mestre visitante
-Idalina- toque de apresentação
– Barravento- toque para jogo rápido que exige grande capacidade de reacção. Toque usado nas rodas de maculelé como variação do toque tradicional
-Puxada de Rede- Toque que acompanha a puxada da rede (teatro folclórico em homenagem aos pescadores).
6b) Pandeiro:
O pandeiro característico da capoeira é feito de madeira, com a pele de couro e os detalhes em ferro.
No Brasil o pandeiro entrou por via portuguesa, mas a origem provável é hindu.
O negro aproveitou o instrumento para utilizá-lo em folguedos.
O pandeiro faz parte da primeira procissão que se realizou no Brasil, a 13 de Julho de 1549 na Bahia- Corpus Christi
6c) Atabaque
De origem árabe este instrumento de percussão foi introduzido no Brasil também pelos portugueses apesar de ser conhecido pelos africanos. É um instrumento de percussão usado nas rodas de capoeira.
O couro vem da pele de vaca e é esticado por um sistema de anéis de metais ou aros, cordas e cunhas de madeira
6d) Agogô:
Instrumento musical de percussão de ferro introduzido no Brasil por africanos.
O termo agogô pertence à língua nagô e vem do vocábulo agogô que quer dizer sino.
Instrumento feito com um par de campanas conectadas por uma haste de metal.
6e)Reco-reco:
Feito de caixas de metal com suíços cortados na parte de cima ou tubos de metal com molas estendidas ao logo da sua extensão.
São tocados através do deslizamento de uma baqueta de metal ou madeira contra as molas ou sulcos.
7) Capoeira também é dança, folclore, tradição…
{mospagebreak}
7a) Maculelé
O maculelé é uma dança de bastões com origem afro-indígena e foi
levada pelos negros da África para o Brasil.
Muitos investigadores defendem tratar-se de uma dança do canavial. Uma dança que os escravos praticavam no meio dos canaviais, com cepos de canas nas mãos para extravasarem o ódio que sentiam pelas atrocidades cometidas pelo senhores dos engenhos. Disfarçada sob a forma de dança era na verdade uma forma de luta contra os horrores da escravidão e do cativeiro.
Os cepos de cana substituíam as armas que os escravos não podiam ter. Enquanto “brincavam” com os cepos de cana os negros cantavam músicas recheadas de ódio, mas cantadas nos dialectos que trouxeram de África  para que o sentido das palavras não fosse entendido.
Para as lutas travadas durante o dia os negros treinavam durante a noite nos terreiros das senzalas com paus em chama que tiravam das fogueiras.
A característica principal desta dança é a batida dos bastões uns contra os outros em determinados trechos de música que é cantada e acompanhada pela batida forte do atabaque.
O maculelé poderá ter sido mesclado com a cultura indígena já que existe em Santo Amaro da Purificação, na Bahia uma dança, um jogo de bastões remanescentes dos antigos indíos cucumbis bastante semelhante.
Os passos de dança do maculelé também se assemelham muito ao frevo Pernambucano assim como a outras danças tradicionais do Brasil como o Moçambique de S. Paulo, a Cana-Verde de Vassouras, o Bate-Pau de Mato Grosso ou o Tudundun do Pará.
b) O Samba de Roda
É um samba originalmente dançado pelas baianas em terreiros de candomblé (religião afro-brasileira).
Surgiu como uma forma de preservação da cultura dos africanos que vieram para o Brasil.
De acordo com pesquisas históricas, o Samba de Roda foi uma das bases de formação do samba carioca.
A manifestação está dividida em dois grupos característicos: o samba chula e samba corrido. No primeiro, os participantes não podem sambar enquanto os cantores gritam a chula: uma forma de poesia. A dança só tem início após a declamação, quando uma pessoa de cada vez samba no meio da roda ao som dos instrumentos e de palmas. Já no samba corrido, todos sambam enquanto dois solistas e o coral alternam o canto.
O samba de roda está ligado ao culto aos orixás (que em comparação com a religião católica representam os “santos” cristãos”), à capoeira e à comida feita à base de azeite. A cultura portuguesa  também está presente na manifestação cultural através da viola, do pandeiro e da língua utilizada nas canções.
O samba de roda foi desde sempre dançado ao ritmo de atabaques e pandeiros e poderá estar na origem do samba moderno e do pagode.
O samba de roda é uma das variações do batuque de Angola.
A orquestra de samba geralmente é composta por pandeiros, viola, chocalho, prato de cozinha arranhado por uma faca e, às vezes, por berimbau. O canto é puxado por uma pessoa, respondido pelos demais, acompanhado por palmas.
Conforme manda a tradição, no centro da roda um dançarino samba sozinho e depois convida uma moça para sambar com ele no centro da roda. Se algum outro dançarino desejar sambar com a mulher, tira o dançarino da roda encenando uma rasteira ou uma bênção.
7bb) Samba de Roda no Recôncavo Baiano
 É uma mistura de dança, poesia e festa. Está espalhada por todo o Estado da Bahia, mas é praticado sobretudo na zona do Recõncavo. É também uma manifestação cultural presente em várias obras de compositores baianos como Dorival Caymmi, João Gilberto ou Caetano Veloso.
Motivos mais que suficientes para candidatar o Samba de Roda no Recôncavo Baiano ao título de Obra-Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade. A ver vamos se o famoso samba de roda baiano vai ser reconhecido pela Unesco.
7c)  Os Cantos da capoeira
Durante a roda são entoadas cantigas que se podem dividir em quatro tipos:
-Corrido- quando o coro vem logo em seguida da estrofe
-Quadra- quando o coro vem depois de quatro tempos
-Chula- Uma história cantada em que o coro entra no fim
-Ladainha- usada somente no jogo de Angola. É uma história cantada porém mais lenta que as chulas e os corridos.
{mospagebreak}
8- A capoeira brasileira é do mundo…
Vejamos os factos:
A capoeira é praticada em 150 países do mundo. Só em Portugal há perto de dez mil capoeiristas e um número infindável de grupos de capoeira. Na Austrália por exemplo 200 mil pessoas praticam capoeira, o equivalente a 1% da população. Na Alemanha, Áustria e Suiça há pelo menos 50 grupos de capoeira, sendo que a oferta de aulas, academias, workshops, encontros internacionais e demonstrações é também cada vez maior.
São os alunos dos alunos dos primeiros mestres que espalham a arte da capoeira pelo mundo fora, mas trata-se de um fenómeno cultural não programado. Não houve uma política cultural do Estado brasileiro para difundir a capoeira. A globalização da arte aconteceu espontaneamente, num processo permanente de reciclagem e transformação mas sempre em respeito pelas tradições e raízes.
Na verdade, os capoeiristas que hoje vivem e trabalham no exterior são considerados verdadeiros embaixadores da cultura brasileira- assim o salientou o cantor e actual Ministro da Cultura Brasileiro- Gilberto Gil ao lançar em Agosto de 2004 em Genebra as bases do Programa Nacional e Mundial da Capoeira. Quase 60 anos depois de ter sido legalizada no Brasil, a capoeira ganha o status de “ícone da representatividade do país perante os demais povos”.
A intenção do Ministro da Cultura é agora elaborar um programa de apoio aos capoeristas no Brasil e no Mundo. Algumas propostas já foram esboçadas, entre as quais a criação de um Centro de Referencia em Salvador da Bahia, a implementação efectiva da capoeira como prática desportiva e cultural nas escolas, uma previdência específica para os capoeiristas, a criação de editais que fomentem projectos nas quais a capoeira funcione como instrumento de cidadania e inclusão social, um calendário anual de eventos nacionais e internacionais e por fim o apoio diplomático aos capoeiristas que estão fora do Brasil.
A ver vamos se finalmente a teoria sai do papel e passa à prática reconhecendo-se a projecção da capoeira e dos que a dignificam.

 

Comment(1)

Aguinaldo janeiro 9, 2014 AT 12:45 PM

Parabéns pela iniciativa, pela contribuição a cidadania em nosso país através desta arte maravilhosa!!

Reply

LEAVE YOUR COMMENT HERE

O seu endereço de e-mail não será publicado. aria-required='true'

5 + 4 =